Diante dos desafios enfrentados pelo agronegócio, investir em sistemas de produção que conciliem maior rentabilidade e capacidade de adaptação às condições climáticas torna-se uma alternativa estratégica para garantir a sustentabilidade e a resiliência das atividades no campo. No Rio Grande do Sul, o sistema de Integração-Lavoura-Pecuária (ILP) se destaca como uma dessas possibilidades. O estado é referência na adoção de sistemas integrados, presentes em 31% das propriedades.
A ILP é uma estratégia de produção agropecuária que integra diferentes atividades produtivas, como agricultura e pecuária, em uma mesma área. Na prática, pode envolver o cultivo de grãos, como soja, milho ou culturas de inverno, alternando com a produção de forragens para alimentação animal e a criação de animais como gado de corte ou de rebanho leiteiro. Essa rotação permite o uso da área de forma mais eficiente ao longo do ano.
Como benefícios, além de ampliar o rendimento por hectare e otimizar o uso da terra, a ILP pode contribuir para a diluição dos custos de produção, bem como ajudar na regeneração do solo. Por outro lado, a adoção do sistema também envolve desafios, especialmente pela maior complexidade da operação e pela necessidade de planejamento e aplicação adequada de tecnologias.

“Apresenta características muito positivas. Inclusive, uma das principais e mais importante é a capacidade de otimizar o uso da terra. Em um mesmo hectare se produz mais alimento: grãos e proteína animal”, destaca o doutor em Zootecnia e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Paulo Carvalho.
Do ponto de vista ambiental, a ILP também possui benefícios importantes. O sistema está entre as tecnologias incentivadas pelo Plano ABC+, política pública federal que estimula práticas agropecuárias sustentáveis e de baixa emissão de gases de efeito estufa. Dessa forma, é reconhecido como uma estratégia de produção que contribui para a mitigação dos efeitos das mudanças do clima e para a adaptação do setor aos seus impactos.
Essa característica ganha ainda mais importância no Rio Grande do Sul, estado que vem sendo marcado por grande variabilidade climática. Ao integrar agricultura e pecuária, o sistema contribui para aumentar a resiliência das propriedades diante desses eventos.
“Dados recentes demonstram que, em situações de extremos climáticos, um hectare de sistema integrado, comparado a um hectare de monocultivo de soja, alimenta três vezes mais pessoas. Enquanto em situações de normalidade esse número é o dobro. Ou seja, em situações de extremos climáticos, a diferença entre os sistemas puros e os sistemas integrados, é ainda maior”.
Doutor em Zootecnia e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Paulo Carvalho.

ILP na Cotrijal
O termo “Integração-Lavoura-Pecuária” é considerado recente, mas a criação de animais paralela à produção de lavouras, tanto para grãos, quanto para forragens, faz parte do contexto histórico de formação do Rio Grande do Sul.
Na Cotrijal também é assim e, praticamente desde a sua fundação, o fomento à produção de leite vem acompanhado pelo incentivo à produção de grãos.
“A cooperativa trabalha de forma muito mais intensa com o sistema de ILP na pecuária de leite, mas precisamos e queremos evoluir também nos trabalhos voltados à pecuária de corte”.
Gerente de Produção Vegetal, Alexandre Doneda.
A avaliação é de que mais da metade da área de atuação em potencial da cooperativa trabalha com pecuária de corte no período de inverno, intercalando com a produção de grãos na safra de verão. “Estamos inseridos em uma região do estado com alto potencial e com muitos desafios técnicos, econômicos e até sociais a serem trabalhados”, complementa.
Os associados Laura Comim e Luis Otávio Lima adotam o sistema de ILP em duas propriedades: uma em Ernestina, voltada para a produção de leite e outra em Espumoso, voltada para o cultivo de grãos, que agrega a produção de gado de corte no período de inverno. Para Luis, um dos grandes benefícios de trabalhar com sistemas integrados é a diversificação, que possibilita reduzir riscos e aproveitar oportunidades.

“O grande ganho da integração é essa diversificação. Ao conseguir trabalhar com mais atividades nós acabamos diluindo um pouco os riscos e ficamos mais resilientes. O leite é uma atividade mais intensiva e o grão acaba vindo como oportunidade em muitos momentos para aumentar a renda”, destaca o produtor, que está cultivando milho para a produção de silagem e, nesta área também irá produzir soja na sequência, aumentando o aproveitamento da lavoura e o potencial de geração de renda da propriedade.
Na propriedade de Espumoso, a principal atividade é a produção de soja e também de milho em algumas áreas. Buscando mais rentabilidade, no inverno os associados dividem a propriedade em três: um terço para trigo, um terço para canola e cobertura e um terço de pastagem para criação de gado de corte. “Lá é um sistema onde a gente faz uma recria em cima de pasto. Compramos os terneiros no outono, fazemos a recria durante o inverno e depois esse gado sai da pastagem e vai para o confinamento para ir para o frigorífico. A ideia é ter um sistema muito intensivo, compramos esses terneiros com 230 – 240 quilos, tiramos da pastagem com 420 quilos e vamos vender eles no final do ano, com 500 quilos. Após tirar o gado fazemos o plantio da soja”, explica.
Segundo o associado, essa diversificação das atividades ajuda a diluir os riscos diante de desafios como oscilações de preços, custos e condições climáticas (excesso de chuva, granizo, estiagem), além de, na média dos anos, apresentar mais segurança e estabilidade do ponto de vista da renda.
Para Luis, um dos desafios da ILP está na complexidade de trabalhar com diferentes atividades, o que exige estudo, planejamento e busca constante por informações. Nesse contexto, destaca a importância da presença da cooperativa na propriedade, oferecendo orientação e suporte. “A Cotrijal nos acompanha na lavoura, na reprodução e manejos do rebanho, na qualidade do leite e criação de bezerras. Quando conduzimos diferentes atividades, precisamos de apoio. E poder contar com os profissionais da cooperativa, que são especialistas em suas áreas, nos dá mais segurança técnica para trabalhar”, reforça.
“É um sistema que dá certo, desde que tenha um bom manejo”, alerta Doneda. Na Cotrijal, os esforços estão concentrados em conhecer melhor as áreas, levantar dados, buscar ainda mais conhecimento e formar capital humano, tanto de agrônomos quanto de veterinários, para auxiliar os produtores a aprimorar e qualificar cada vez mais os manejos. Além disso, o objetivo é demonstrar que o sistema funciona e representa mais uma oportunidade de renda para os produtores rurais.
Pesquisas mostram resultados no bolso
O professor Paulo Carvalho explica que estudos publicados pelo Grupo de Pesquisa em Ecologia do Pastejo da UFRGS mostram como a adoção do sistema integrado contribui com a estabilidade financeira das propriedades.
As pesquisas analisaram um período de 15 anos, entre 2001 e 2016, marcado por diferentes condições e variações climáticas. Os resultados demonstraram que a média do rendimento, em dólares por hectare, foi de US$ 964 nos sistemas integrados, contra US$ 447 nos sistemas sem integração.
O estudo compara áreas de soja em rotação com pastagem com áreas de soja conduzidas sem essa rotação. No pior ano analisado, marcado por estiagem e, consequentemente, por uma das piores colheitas do período, a diferença entre os sistemas ficou mais evidente. Nas áreas de soja conduzidas em integração, o rendimento foi de US$ 189 por hectare. Já nas áreas sem integração, houve uma perda de US$ 215 por hectare.
A diversificação é uma alternativa estratégica nos momentos de adversidades. “Quanto mais diversificada for a agricultura, melhor e maior vai ser o sucesso de uma propriedade. Ainda temos um predomínio muito grande na produção de soja. Hoje apostamos mais de 85% das nossas fichas na safra de verão, tanto é que essas sucessivas quebras de safra que tivemos abalaram muito a situação financeira dos produtores e toda cadeia envolvida no agro. Muito disso por não termos a matriz diversificada”, complementa o gerente da Cotrijal.
Benefícios e atenção ao solo
O cuidado com o solo é uma questão especial. Entre as dúvidas mais comuns dos produtores está o impacto da presença dos animais nas áreas, especialmente em relação ao pisoteio e ao risco de compactação. Mas, quando o sistema é bem manejado, a pecuária pode contribuir justamente para melhorar a qualidade desse solo.
“O ciclo pecuário dentro da integração é regenerador de solos, tanto do ponto de vista químico quanto físico e biológico. Solos de sistemas integrados são mais ricos, mais vivos e com mais saúde, mais do que sistemas puros agrícolas”, explica o professor, ressaltando que a recuperação dos solos é um dos principais benefícios da ILP. Isso ocorre, entre outros fatores, pela deposição de fezes e urina, que favorecem a ciclagem de nutrientes, a incorporação de matéria orgânica e a atividade de microrganismos benéficos, contribuindo para a fertilidade e a estrutura do solo. A agricultura se beneficia desse solo mais saudável e, segundo o pesquisador, há estudos que mostram impactos positivos, inclusive, no controle de plantas invasoras, pragas e doenças.
Segundo o gerente de Produção Animal da Cotrijal, Alan Issa Rahman, o manejo de pastagens quando há criação de animais é essencial neste contexto. É importante trabalhar com sistemas de piquetes rotativos, controlar a oferta de pastagem evitando que o pasto fique muito baixo, além de ajustar a quantidade de animais de acordo com a capacidade da área.
“O princípio básico é otimizar o ganho de peso dos animais sem comprometer a qualidade do solo. Para isso, não podemos trabalhar com pastagens muito baixas. Quando não há oferta suficiente de alimento, o gado não ganha peso adequadamente e a área começa a ser degradada. Quanto menor a disponibilidade de alimento, mais os animais precisam caminhar em busca de pastagem, intensificando o pisoteio e aumentando o risco de compactação do solo, o que pode prejudicar o desenvolvimento das culturas que serão implantadas na sequência”.
Gerente de Produção Animal da Cotrijal, Alan Issa Rahman
Com um manejo adequado, ocorre a recuperação mais rápida das plantas, melhor distribuição dos dejetos, maior formação de raízes e manutenção de palha para a implantação da próxima cultura.
Todos esses fatores fortalecem o sistema de produção, permitindo conciliar o desempenho dos animais com a conservação do solo e favorecendo o desenvolvimento das culturas nos ciclos seguintes. “O conceito base da ILP é que a agricultura e a pecuária funcionem de maneira sinérgica, em que um sistema ajude o outro”, reforça Alan.
Outra questão importante
Em propriedades leiteiras com pouca área disponível, é comum o cultivo sucessivo de milho safra e safrinha para produção de silagem. Como a planta é praticamente toda retirada para a alimentação dos animais, há pouca palhada remanescente, o que pode comprometer a disponibilidade de nutrientes e a qualidade do solo.
Para evitar esse saldo negativo, é fundamental realizar a correção do solo com calcário e repor os nutrientes conforme a extração da cultura. Segundo Alan, outra prática essencial na ILP é devolver à lavoura os dejetos da pecuária, seja por meio das camas dos animais em sistemas de confinamento, ou pelos resíduos armazenados em esterqueiras. Ricos em matéria orgânica e nutrientes, esses materiais contribuem para recuperar a fertilidade do solo.

Desafios e oportunidades
O planejamento segue sendo essencial nas propriedades e por se tratar de um sistema mais complexo, é necessário olhar com atenção para a questão financeira para implementar a ILP. “A implantação do sistema, muitas vezes, envolve investimentos em estrutura e exige um cuidado especial com o fluxo de caixa e com a estratégia de início, considerando os custos iniciais e a imobilização de recursos. Por isso, esse processo precisa ser bastante planejado”, explica o professor da UFRGS, complementando que a formação de profissionais com uma visão mais geral do sistema produtivo também é um desafio, uma vez que a integração exige mais conhecimento para sua adoção e condução.
No contexto atual do setor agropecuário, adversidades que vem enfrentando, variações climáticas, bem como a necessidade de olhar para a sustentabilidade das propriedades, o professor vê a adoção dos sistemas integrados como fundamental. “Vejo como mais do que importante, vejo como capital. Em nível federal já é tema de políticas públicas pela questão de mitigação de gases, mas não para a sustentabilidade específica das propriedades rurais. No caso do Rio Grande do Sul, diferente de outras regiões do país, essa é a peça fundamental. Não é uma questão de adaptação e mitigação dos gases, é uma questão de sobrevivência”, destaca.
Carvalho ressalta que o grupo do Rio Grande do Sul é um dos principais responsáveis pela produção de conhecimento e ciência sobre sistemas integrados no mundo. Segundo o profissional, do ponto de vista científico, já existe uma base sólida para dar suporte à adoção e ao desenvolvimento dessas práticas. No entanto, nesses 31% de propriedades é preciso considerar que existem diferentes formas de integração. Parte dessas áreas está relacionada a sistemas de arrendamento, que também são considerados como integração, mas que podem apresentar diferentes níveis de interação entre a agricultura e a pecuária. Nesses modelos, nem sempre são exploradas de fato todas as potencialidades e os benefícios da integração entre as atividades.
Destaque nacional
Segundo Carvalho, o Rio Grande do Sul é o estado com a maior proporção das propriedades rurais com sistemas integrados no país, com 31% das áreas. Em nível nacional, os sistemas integrados crescem aproximadamente 1 milhão de hectares por ano. Em comparação, o Paraná, por exemplo, possui 4% das áreas integradas.
Renda durante o inverno
Segundo o professor da UFRGS, o Rio Grande do Sul possui mais de 8 milhões de hectares destinados às lavouras de verão, principalmente soja e milho, em áreas de coxilha. No inverno, porém, apenas cerca de 20% dessas áreas são cultivadas. O restante permanece sem atividade produtiva, muitas vezes apenas com cobertura para o plantio direto e, em alguns casos, com pastagens sem a presença de animais.
Ainda existe, entre alguns produtores, receio em utilizar essas áreas para o pastejo, pela preocupação de que o gado possa prejudicar a lavoura seguinte. O cenário representa uma oportunidade para ampliar o uso dos 5 a 6 milhões de hectares que permanecem disponíveis no inverno. Para aproveitar esse potencial, conforme Carvalho, é necessário avançar em esforços e integração entre os diferentes setores da cadeia produtiva.
Também é importante considerar a aptidão de cada região. Algumas áreas apresentam menor potencial para o cultivo de trigo, canola, carinata e outras culturas comerciais de inverno, mas possuem grande potencial para a atividade pecuária. “A pecuária entra como um aliado fantástico para esse período de inverno, tanto para ocupar o solo, agregar renda, diluir toda a parte de recursos fixos da propriedade, assim como é cultivar qualquer cultura comercial de grãos. É mais uma opção que o produtor tem para diversificar o seu sistema produtivo”, finaliza o gerente de Produção Vegetal da Cotrijal, Alexandre Doneda.