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29/10/2026 - quinta-feira - 10:39 AM

Como preparar a propriedade para os desafios do agronegócio

A agricultura sempre esteve sujeita às condições do clima. O que muda é a dimensão que os eventos extremos passaram a ocupar nas decisões dentro da propriedade. Estiagens prolongadas, períodos de chuva excessiva, ondas de calor, geadas e tempestades podem comprometer o desenvolvimento das culturas, reduzir a produtividade e, em consequência, afetar diretamente a renda do produtor. Em um sistema produtivo que exige investimentos elevados e trabalha com margens cada vez mais ajustadas, lidar com essas variáveis exige mais do que capacidade de reação, exige planejamento.

No Rio Grande do Sul, essa realidade ganhou ainda mais evidência nos últimos anos. A alternância entre períodos de excesso e falta de água, junto às oscilações de temperatura e à ocorrência de eventos extremos, impõe ao produtor a necessidade de conhecer melhor o ambiente em que produz e de estruturar sistemas capazes de enfrentar diferentes condições ao longo das safras.

Para o engenheiro-agrônomo e pesquisador da Embrapa Trigo, Gilberto Rocca da Cunha, o clima e o solo precisam ser considerados como elementos centrais da gestão da propriedade. Segundo ele, a agricultura brasileira, pelo nível de investimento e tecnologia empregado atualmente, exige atenção especial às anomalias climáticas, que podem determinar tanto o resultado agronômico quanto o econômico de uma safra.

“Os riscos de clima não podem mais ser ignorados na agricultura moderna”.

Engenheiro-agrônomo e pesquisador da Embrapa Trigo, Gilberto Rocca da Cunha

Na avaliação do pesquisador, a gestão do risco climático precisa estar integrada à gestão da atividade, com estratégias que permitam reduzir os prejuízos em períodos adversos e aproveitar melhor as condições favoráveis.

A preocupação não se restringe a um fenômeno específico. O comportamento do El Niño, por exemplo, demonstra como as condições climáticas podem alterar as perspectivas de uma safra. No Sul do Brasil, o fenômeno costuma estar associado a chuvas acima do padrão, especialmente durante a primavera. Para as culturas de inverno, o excesso de umidade pode aumentar problemas fitossanitários, dificultar operações e reduzir o potencial produtivo. Já nas culturas de verão, períodos de estiagem e temperaturas elevadas podem representar riscos em fases críticas do desenvolvimento.

Em artigo publicado pela Embrapa Trigo em agosto de 2026, Cunha também chama atenção para a necessidade de avaliar os riscos relacionados ao El Niño sem transformar o fenômeno em uma explicação automática para todos os eventos climáticos. A orientação é utilizar informação meteorológica e conhecimento técnico para transformar a previsão em decisão no campo.

A adaptação, portanto, começa antes da semeadura. Envolve a escolha das culturas, dos materiais genéticos, dos períodos de plantio e das práticas de manejo, mas também passa pela conservação do solo, pela organização financeira e pela definição de mecanismos de proteção.

Planejamento passa a ser essencial

Para Alexandre Doneda, gerente de Produção Vegetal da Cotrijal, o primeiro passo para preparar uma propriedade para um cenário de maior instabilidade é organizar as decisões com antecedência. O planejamento, segundo ele, precisa deixar de estar restrito à próxima safra e passar a considerar o sistema produtivo como um todo.

“O termo planejar, é hoje uma das palavras mais importantes dentro de uma propriedade rural. Não há mais como conduzirmos a agricultura hoje sem planejamento”.

Gerente de Produção Vegetal da Cotrijal, Alexandre Doneda

Esse planejamento, na avaliação do gerente, deve considerar um horizonte de pelo menos cinco anos. Uma das formas de fazer isso é organizar cada parte da propriedade e definir antecipadamente a sequência de culturas que será utilizada em cada período. A organização permite visualizar a sucessão de culturas e antecipar decisões que terão impacto sobre o solo e sobre o próprio resultado econômico da propriedade. 

Para Doneda, a diferença está justamente em não deixar decisões importantes para o momento em que a necessidade aparece. A escolha da cultura, por exemplo, precisa estar definida dentro desse planejamento, assim como as alternativas para cada área. “Quem faz isso, obtém muito mais sucesso do que aqueles que não planejam”, observa. Segundo ele, decisões tomadas apenas de acordo com o preço ou com as condições daquele momento tendem a aumentar a exposição do produtor às oscilações.

É essa conexão entre planejamento de longo prazo e decisões do dia a dia que, para o gerente, torna a gestão mais eficiente. “Você tem desde o planejamento mais macro da sua propriedade até o planejamento micro daquilo que você vai fazer no dia a dia”, explica. 

A preocupação ganha peso diante de um cenário em que o clima tende a impor desafios maiores e as margens econômicas estão mais apertadas. “É muito provável que nós vamos ter cada vez mais desafios climáticos, mais eventos extremos, mais instabilidade, inclusive na previsibilidade do clima.”, avalia Doneda.

Ao mesmo tempo, ele chama atenção para a necessidade de integrar a gestão técnica e financeira. “Junto com o planejamento, a gestão está intimamente ligada, tanto a gestão técnica quanto a gestão financeira do negócio.” 

Doneda também destaca a importância de diversificar os materiais utilizados dentro de um sistema de rotação. A repetição de uma mesma cultivar ou híbrido em anos consecutivos deve ser evitada quando tecnicamente inadequada. Depois dessa definição, entra em cena outro componente decisivo que é a qualidade da semente.

“Independentemente da cultura, é necessário utilizar uma semente certificada, com garantia de qualidade, para que todo o planejamento, no momento da implantação no solo, tenha bons resultados”, ressalta. 

O planejamento encontra no solo uma de suas principais bases. Preservar esse patrimônio não é só uma estratégia para elevar a produtividade atual, mas uma responsabilidade com a continuidade da atividade. “Se nós não cuidarmos do solo, os nossos filhos, nossos netos não vão ter um ambiente produtivo no futuro”, destaca.

O gerente ainda cita como fundamentos o plantio direto sobre plantas vivas, a rotação e a sucessão de culturas, a manutenção da palhada e outras práticas conservacionistas, como o plantio em nível e medidas para reduzir o escoamento da água da chuva. 

Nesse processo, a assistência técnica da Cotrijal aparece como parte da estratégia, e não apenas como suporte pontual. “ É fundamental ter o profissional técnico como um parceiro, a cooperativa como aliada para ajudar em toda e qualquer tomada de decisão, seja ela desde a parte técnica, gestão e comercial”, destaca Doneda.

A experiência de quem planeja no campo

A adoção dessas práticas pode ser observada na propriedade de Gunter Barth, produtor rural e associado da Cotrijal. A experiência do produtor mostra como a rotação de culturas, a cobertura do solo e o planejamento das áreas podem fazer parte de uma estratégia construída ao longo dos anos.

No inverno, aproximadamente um terço da área é destinada ao trigo. O restante é ocupado por alternativas de cobertura, como aveia, ervilhaca e nabo. No verão, Barth trabalha com aproximadamente um terço da área com milho e dois terços com soja.

A organização das áreas é acompanhada por práticas de conservação do solo. O produtor utiliza plantio em contorno, ou plantio em nível, mantém o terraceamento, que ajuda a controlar o escoamento da água e reduzir a erosão e busca manter áreas cobertas tanto no inverno quanto no verão. A estratégia ganhou importância diante da experiência do produtor com períodos de estiagem. Barth conta que enfrentou cinco anos consecutivos de falta de chuva.

A falta de água foi especialmente prejudicial em momentos como floração e enchimento de grãos. Ainda assim, o produtor avalia que a combinação entre rotação de culturas, conservação do solo e diferentes práticas de manejo contribuiu para manter a produtividade da propriedade em um patamar acima da média regional.

“Com a rotação e conservação de solo e essas práticas, esses tratos culturais diferenciados, a gente consegue incrementar a produtividade”.

Produtor Rural da Cotrijal, Gunter Barth

Para Barth, acompanhar as novidades também é necessário, mas sem deixar de lado os fundamentos da atividade. “Hoje nós temos que correr atrás das novidades, temos que trabalhar sempre com materiais que despontam e usar sempre todas as práticas conservacionistas.”

Ao mesmo tempo, ele resume a preparação da propriedade em uma orientação que considera essencial:

fazer o básico bem feito e respeitar o momento adequado para cada operação.

Entre esses fundamentos, o produtor destaca ainda o respeito ao zoneamento das culturas de inverno e verão. A experiência de Gunter mostra que a preparação para cenários de maior risco climático não depende de uma única medida. Ela é construída pela repetição de práticas que protegem o solo, organizam o sistema produtivo e dão mais previsibilidade às decisões.

Quando a gestão financeira entra no planejamento

A preparação para uma safra também precisa considerar uma variável que não está no solo nem no clima: os recursos disponíveis para sustentar a atividade. (Destacar)

Para Rogério de Melo Bastos, economista e consultor em gestão de propriedades rurais, os períodos de quebra de safra podem aumentar a pressão sobre o endividamento, mas a situação financeira de uma propriedade é resultado de um conjunto de decisões. Custos fixos, despesas pessoais, arrendamentos, investimentos realizados em anos de preços elevados e financiamentos assumidos anteriormente também podem pesar sobre o caixa.

O consultor destaca que períodos de maior renda podem levar ao aumento dos investimentos e dos custos de produção, tornando o planejamento financeiro ainda mais importante diante das mudanças no cenário. 

Antes de iniciar uma nova safra, Bastos considera indispensável a elaboração de um fluxo de caixa projetado. A ferramenta permite confrontar o saldo disponível com os custos variáveis e fixos, as parcelas de financiamentos e as demais obrigações previstas. 

A partir dessa projeção, o produtor consegue identificar antecipadamente se terá capital de giro suficiente para conduzir a safra até a entrada das próximas receitas. Caso não tenha, pode dimensionar a necessidade de capital de giro e avaliar as alternativas de financiamento ou compra a prazo.

O princípio é evitar que uma dificuldade financeira seja percebida apenas quando a conta já venceu. Quanto maior a antecedência na identificação do problema, maior a possibilidade de reorganizar despesas, negociar compromissos e buscar recursos.

Nesse sentido, a gestão financeira complementa o planejamento agronômico. Uma propriedade pode apresentar bom potencial produtivo, mas decisões de investimento incompatíveis com sua capacidade de pagamento podem comprometer o resultado econômico.

Proteção diante do que não pode ser controlado

Mesmo com planejamento e manejo adequados, determinados riscos permanecem fora do controle do produtor. Uma estiagem prolongada, uma chuva excessiva ou outro evento climático pode comprometer uma parte significativa da produção. É nesse ponto que os mecanismos de proteção passam a fazer parte da estratégia.

Para Bastos, o seguro rural deve ser incorporado à planilha de custos como um item de proteção da atividade. A avaliação, porém, precisa considerar a cobertura oferecida, o custo e a credibilidade da corretora e da seguradora.

“A recomendação é não escolher uma proteção apenas pelo preço ou por promessas de cobertura. Assim como acontece com os demais insumos utilizados na propriedade, é necessário conhecer a procedência do serviço e as condições estabelecidas no contrato.”

Economista e consultor em gestão de propriedades rurais, Rogério de Melo Bastos

Gilberto Rocca da Cunha, pesquisador da Embrapa Trigo, também considera os mecanismos de transferência de risco parte da gestão integrada da propriedade. Seguro rural e outros instrumentos de proteção não substituem as boas práticas agrícolas, mas podem reduzir o impacto financeiro de eventos que não podem ser evitados.

Para o pesquisador, cada propriedade deve trabalhar com um plano de gestão integrada de riscos, considerando os principais riscos climáticos associados à atividade, as estratégias de plantio e a escolha de culturas e ciclos de cultivares que apresentem menor exposição.

Informação, assistência e cooperação

A complexidade das decisões reforça também o papel da informação e da assistência técnica. O produtor precisa interpretar dados climáticos, avaliar o potencial de cada cultura, acompanhar o estado do solo, conhecer os custos de produção e analisar as alternativas de proteção.

Cunha destaca ainda a importância de ferramentas como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), que reúne informações para apoiar a definição dos períodos mais adequados para a implantação das culturas e reduzir a exposição a riscos climáticos.

O acompanhamento, porém, não termina no planejamento. É necessário monitorar as condições da lavoura e os resultados das decisões tomadas, permitindo ajustes de manejo sempre que necessário.

Preparar a propriedade é preparar o futuro

A agricultura continuará sujeita ao clima, ao mercado e a fatores que não podem ser completamente controlados. O que pode ser planejado é a capacidade da propriedade de responder a esses cenários.

Isso passa pela conservação do solo, pela rotação de culturas, pela escolha de sementes e materiais adequados, pelo respeito ao zoneamento, pelo acompanhamento climático, pela assistência técnica e pelo controle financeiro. Passa também pela avaliação dos instrumentos de proteção disponíveis.

Em um cenário de maior instabilidade, preparar a propriedade representa integrar essas dimensões. O planejamento deixa de ser apenas uma previsão para a próxima safra e passa a ser uma ferramenta para organizar o presente, reduzir riscos e preservar a capacidade produtiva da propriedade no futuro.

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